William Eggleston: A cor americana

by - sexta-feira, abril 17, 2015


Domingo foi um dia incrível pra mim. Depois de uma manhã muito agradável na feira hippie de Ipanema e antes de um almoço delicioso no evento de food truck que rolou lá no Planetário da Gávea, dei uma passadinha "rápida", mas feliz, pelo Instituto Moreira Salles, que conta atualmente com uma exposição maravilhosa de um dos maiores fotógrafos norte-americanos de todos os tempos, William Eggleston.

Também conhecido como "pai da fotografia colorida", Eggleston e a sua fotografia da década de 60 e 70 remetem ao auge do capitalismo norte-americano, a explosão da sociedade de consumo e suas implicações econômicas, políticas e sociais, sobretudo no sul dos EUA, onde o artista nasceu. Desse modo, abordando a emergência de um novo padrão de vida norte-americano, o tal do american way of life dos grandes outdoors e dos shoppings centers, Eggleston fotografa o improvável do dia a dia, o ordinário de uma rotina que ia, aos poucos, sendo profundamente abalada e modificada pelos novos hábitos de consumo.


Além disso, toda a sua fotografia não se restringe a "detalhes despercebidos" do dia-a-dia. Eggleston preocupa-se também em registrar a sociedade norte-americana da época, seu estilo e seus costumes, seus cortes de cabelo e seus sapatos, os bares que frequentam, os carros que usam. Assim, cria um panorama especialíssimo dos Estados Unidos na década de 60, inusitado, irreverente e excêntrico por trás das lentes coloridas do artista.


O jogo de cores, aliás, é um detalhe importantíssimo de suas composições. Pioneiro no uso da extinta técnica de dye transfer (transferência de corante), Eggleston manteve uma marca precisa e única nas suas fotografias, que acabaram por adquirir uma tonalidade especialíssima e que divergia muito das fotografias da época. Por esse motivo, foi vítima de críticas e motivo de elogios, que contribuíram muito para a elevação do seu trabalho a alta categoria da fotografia norte-americana.

Outro detalhe importante e curioso do trabalho de William é a forma como suas fotografias, através dos detalhes, sugerem histórias e contos de uma sociedade que já começava a sentir os primeiros efeitos do super capitalismo. Desigualdade, exploração e miséria contrastavam com a efervescência das propagandas comerciais e dos anúncios de refrigerante, tão bem explorados pela mídia: Eggleston volta seu olhar para os primeiros flagelos de um país que mergulhava em um consumo doentio e na sede por estímulos sensoriais que acabaria atolando-o, mais cedo ou mais tarde, de informações e produtos imprestáveis. Daí o porque das lixeiras - sempre tão lotadas!

Por outro lado, fotografando sua família e até seus amigos íntimos, Eggleston propunha uma viagem pelo sul dos Estados Unidos e pelo reconhecimento de suas contradições e incoerências, frutos inevitáveis de um passado de exploração e escravidão, onde a sociedade se consolidou sob os pilares do patriarcalismo e da desigualdade - de forma bem parecida com o caso brasileiro, por exemplo. Desse modo, percorrendo o Alabama, Mississipi e Tennessee (sua terra natal), o artista explora as diferentes marcas de um povo ainda assolado pelo fantasma do preconceito e da exclusão, ao mesmo tempo em que a modernidade se impunha à força bruta aos costumes locais.


Realista, inspirador e inevitavelmente colorido, Eggleston teça um olhar preciso sobre uma sociedade que até hoje observa os efeitos desse hiper consumo e dessa super produção, seja nas suas desigualdades ou então na produção de seus excedentes. Além disso, prenuncia uma desconfiança no "futuro brilhante" anunciado pelos grandes anúncios e por fotógrafos como Robert Frank, além de se agarrar à um tipo fotográfico geralmente estereotipado e denegrido: a fotografia amadora.

Com passos largos, um olhar preciso e uma técnica arrasadora, William acabou por, enfim, comprovar a eficiência do seu trabalho - e o sucesso obtido, merecidamente, em exposições internacionais, como a do MoMA em 1976 e a do IMS, hoje, no Rio.

Apresentada até o dia 28 de junho, a amostra coleta 172 obras do artista, incluindo sucessos e inéditas, além da exposição de vídeos e filmes que contaram com a "mãozinha" do autor e que revelam sua sensibilidade e personalidade características. Além disso, muito bem organizada, a amostra permite um mergulho preciso pela arte de um artista que fugia do óbvio e do clichê, e que, mais do que isso, expunha o outro lado do sucesso norte-americano.

"Estou em guerra contra o óbvio" declarou Eggleston. E como está!

Instituto Moreira Salles - Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
De terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca - Classificação livre

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