Encruzilhada

by - quarta-feira, maio 13, 2015


E hoje foi dia de Parque Lage. Inquietava-me o fato que, mesmo morando na cidade e conhecendo o Jardim Botânico, eu ainda não tivesse dedicado uma das minhas tardes para conhecer um dos parques mais bonitos da região, sempre tão famoso nos guias do Rio e nos instagrams de apaixonados pela cidade. Além disso, com uma amostra curiosa e irreverente, visitar o Parque Lage até o dia 2 de junho torna-se mais do que uma experiência positiva, mas necessária. 

E lá fui eu. Na verdade, o tema da exposição, "Encruzilhada", me assustava um pouco. Putz, o que vem a ser uma encruzilhada?

Até sei, ok, mas como explorar isso artisticamente? Um encontro de ruas? O cruzamento de vetores espaciais? Não somente. Encruzilhada, na realidade (e a exposição ressalta bem isso), é o momento em que nos surpreendemos diante do novo e sentimos a necessidade de agir, mas não sabemos que escolha fazer. É aquele espaço de tempo em que povoamos a dúvida e não sabemos se tomamos a direita ou seguimos em frente, se damos a volta ou olhamos para trás. Encruzilhada é incerteza.

"Chance", um grito ecológico, e a encruzilhada política das ruas do país
Mas é crítica também. Além de caber perfeitamente à analise do momento político do país, encruzilhada faz referência ao momento ecológico que todo o nosso planeta atravessa. Quer encruzilhada maior do que o progresso X a destruição das grandes florestas? Para onde seguir?

Além disso, encruzilhada faz referência também à cosmologia de ancestralidade africana, e daí muito da nossa memória criativa conseguimos recuperar: são as encruzilhadas dos mitos e das crenças, dos exus e dos orixás. É a encruzilhada do movimento, da fluidez, e, justamente por isso, não é congelada em um instante de exposição: ela se transforma. E nesse sentido, o faz literalmente: a cada semana, uma nova obra é adicionada, e além de uma programação semanal de performances, toda segunda-feira uma parte da exposição é alterada. Transitoriedade ao pé da letra.

E não para por aí: até a organização dos trabalhos se faz de forma dispersa e original. São obras espalhadas pela piscina e pelo terraço, na capela e na oca, no platô, na torre, na gruta e em diversos outros caminhos, jardins, trilhas e encruzilhadas que compõem o parque e sua floresta. Afinal, a encruzilhada não se conforma dentro de limites.

A CPI dos Ônibus do Rio de Janeiro é a encruzilhada da artista Joana Traub Cseko, e um jogo de notas fiscais brinca com o sentido da palavra capital ao imprimir, sobre as notas, imagens de Brasília. De qual capital estamos falando?


Marcos Chaves, um dos meus artistas favoritos, volta seu olhar mais uma vez para o renegado social. Por outro lado, a série que contempla a pornografia explora as encruzilhas reais entre o pornográfico e o político.

"Telefone sem fio", uma das obras mais preciosas da exibição, pioneiro na arte de vídeo no Brasil. Já o trabalho "Oração", de Lucas Parentes, explora a percepção de um morto, como o próprio artista fez questão de definir.

Para completar, a encruzilhada na realidade revela encruzilhadas particulares que carregamos dentro de nós mesmos. "Analisar nossas necessidades e nossas possibilidades (os meios para realizá-las) é conhecer nossas encruzilhadas", como bem propõe Bernardo Mosqueira, curador da exposição. Bernardo, aliás, é o primeiro curador convidado do projeto "Curador visitante", que tem como principal objetivo articular cinco curadores por ano em exposições de curta duração sobre um assunto de seu interesse, integrando pelo menos cinco artistas em formação. Desse modo, democrática e social, encruzilhada já nasce comprometida com essa saudável simbiose entre o novo e o antigo, o inovador e o tradicional. É a encruzilhada fundamental da arte.

Por fim, a exposição propõe também uma reflexão ao tomar a encruzilhada enquanto ação, isto é, o exercício da encruzilhada: uma nova forma de descobrir-se diante do novo, de colocar-se diante da dúvida, de questionar-se diante de momentos críticos ou diferenciados, justamente como os que enfrentamos na política e na ecologia do país. Encruzilhada designa a abundância de caminhos possíveis e a necessidade de decisão, que necessariamente implica em uma renúncia. E como diria Charlie Brown, isso é a vida. 

Duas encruzilhadas essenciais mas nada óbvias: a primeira, um jogo de interseções; a segunda, uma intervenção artística nas ruas do Rio

Bernardo Mosqueira não é mais um idealizador de um projeto simpático, mas, como ele mesmo concebe, um ator político: "Realizar uma exposição é o ato político de organizar muitos discursos a partir de um conjunto de compromissos éticos", explica. E o faz. Ao elevar suas indagações para a forma como nos postamos diante da incerteza, Bernardo elenca mais do que a dúvida em si, mas também a forma como realizamos as nossas escolhas - e porque as realizamos. Desse modo, assume um caráter reflexivo e questionador para a exibição, que inevitavelmente torna-se transformadora no público. É a arte que segue. Virando à esquerda ou não.


Encruzilhada
Parque Lage - R. Jardim Botânico, 414, Jardim Botânico, Rio de Janeiro
Até o dia 2 de junho de 2015, das 9h às 17h 
Com performances aos sábados

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2 Opiniões sobre

  1. Arrasou, Ju!!
    Adorei a resenha e achei legal você falar sobre a exposição no seu blog. Gostei da interpretação, de associar encruzilhada a esse cruzamento de caminhos e etc.
    Na religião africana, tinha uma lá perto do chafariz que eu achei muito interessante: "Casa de Exú". Você viu? Quando a gente passava perto, espirrava cheiro de cachaça. Acho que essa questão poderia ter sido abordada de forma até mais rica na exposição - dos cultos de origem africana. Daria um toque de representatividade. Quase ninguém fala sobre o tema. A gente só vê em desfile de escola de samba.
    Mas o todo da exposição é realmente sensacional. E essa ponta de crítica também. Gostei das suas interpretações sobre obras específicas.
    E também adorei conhecer o Parque Lage, também nunca tinha ido lá.

    Beijos :*

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  2. Vi! Você sempre tão querida! Fico feliz que tenha gostado da resenha. E concordo com você: acho que eles poderiam ter ido ainda mais fundo nessa questão espiritual que, na verdade, é vítima de tanto preconceito na nossa sociedade. Mas, de todo modo, a exposição é uma grande experiência construtiva do ponto artístico e social, como fiz questão de elencar. Um beijo e muito obrigada pelo carinho de sempre <3

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