Desabafo

by - terça-feira, novembro 17, 2015



Paris é uma cidade encantadora. Com seus monumentos e pontos turísticos, igrejas e museus, cafés e parques, Paris é absolutamente inspiradora, delicada e simpática aos olhos dos seus visitantes. É impossível não se perder por meio das suas ruas e avenidas, apenas flanando, como os próprios franceses fazem questão de descrever. É uma cidade para ser admirada, vista e apreciada, em cada detalhe, cada esquina e cada pausa no meio das tardes de verão.

No entanto, para aqueles de vista aguçada, Paris também tem lá suas imperfeições. Nenhum país é perfeito e, infelizmente, nenhuma república é absolutamente democrática, por mais que os franceses tanto se orgulhem em levantar essa bandeira. A França falha. O mundo falha. E, mais uma vez, o país e seus habitantes sofrem as consequências de erros negados no passado e reproduzidos no presente.

A quantidade de imigrantes em Paris é surpreendente. Basta uma pequena viagem de metrô ou de trem para as zonas mais distantes do centro da cidade para descobrir uma nova Paris, miscigenada e rica culturalmente, com suas ascendências africanas, americanas e árabes. Ou então, mesmo no centro da cidade, a presença dos imigrantes é notável: impossível não reparar na quantidade de africanos aos pés da Torre Eiffel, comercializando suas miniaturas; no Quartier Latin (que não leva esse nome a toa), com seus estudantes latinos; o Marais, com suas inúmeras famílias judaicas e até mesmo em Belleville, uma perfeita reprodução de bairro chinês. Paris é multicultural, cosmopolita e rica cultural e etnicamente, o que consequentemente contribui para a personalidade da cidade.

Ainda assim, essa identidade heterogênea é rispidamente negada pelo preconceito e pelo silêncio. Nas lojas de Paris, restaurantes e até mesmo no metrô, os sinais de racismo e xenofobia são evidentes, escancarados e preocupantes. Os imigrantes são responsabilizados pela maioria dos problemas da cidade, o que, além de incrementar a ignorância de muitos, fomenta o ódio de outros. Os resultados não poderiam ser muito diferentes dos que ocorreram na última sexta feira, e, realmente, não são.

Nenhum preconceito ou exclusão, ou qualquer coisa do tipo, justifica o terrorismo, o banho de sangue e a maldade. Não trata-se disso. E também não estou aqui para discutir a atitude daqueles que pregam o terror, em nome de um Deus que, acredito eu, não está nada orgulhoso. A questão vai muito além disso. Está nos mares africanos e nos milhares de crianças e adultos que morrem, diariamente, em busca da esperança. Está lá na África, na América ou então na Ásia, em áreas onde a pobreza, a guerra, a fome e o desamparo não dão escolha e matam, arbitrariamente, centenas e centenas de vidas e de sonhos. A questão explodiu em Paris - mas foi acesa do outro lado do oceano.

Mutilados, milhares de pessoas desembarcam todos os dias na Europa. Excluídos e renegados, não são acolhidos mais uma vez e são desprovidos de liberdades e direitos fundamentais. O mesmo mundo que em nada contribui para melhorar a situação nesses países (e que por vezes até a piora), exclui e prejudica mais uma vez seus habitantes, as "escórias" do mundo civilizado, os perigosos, vagabundos e degenerados imigrantes. Mais uma vez, e diariamente, lhe são negados a vida e a esperança.

Enquanto a França e todos os países europeus, os Estados Unidos e a América, a Ásia e África, não reconhecerem seus papéis enquanto constituintes do mesmo planeta e pertencentes à mesma civilização, o mundo viverá um colapso interminável. Enquanto forem desprezados as identidades étnicas e culturais que se encontram e se fundem diariamente em um mundo cada vez mais "globalizado", haverá preconceito, xenofobia, ódio e terror. E principalmente: enquanto a maioria dos países calar-se e cegar-se diante da guerra, da fome, das destruições ambientais e da ambição descontrolada do homem, banhos de sangue continuarão a protagonizar as nossas manchetes jornalísticas. É preciso que o mundo acorde e que, em vez de um minuto de silêncio, tenhamos minutos de debates, discussões e ideias para contribuir por um mundo melhor.

Por Paris e por Mariana, pela Síria e pelos Estados Unidos, por todos os adultos e todas as crianças, eu peço: Mais amor, por favor. 


You May Also Like

0 Opiniões sobre